Existem fatos que são porque são. Gostar, por exemplo, é uma delas. Ninguém obriga ninguém a gostar ou não gostar. Gosta- se e pronto, está feito! Não há mais nada a fazer, é inquebrantável a vontade. Pode ser gostar de pessoa ou de coisa. De pessoa, então, nem se fala… Gostar, ou melhor, amar, que é uma espécie de gostar; então, é verbo intransitivo. Não precisa de complemento – ama-se ou não se ama. No amor está incluída também a amizade, que é uma espécie de amor. De coisa também se gosta, pode ser de residência, de obra de arte, de trabalho, de comida, de bebida, de time de futebol, de candidato a Presidente da República, de roupa, de carro, de animal de estimação, de perfume, de clima ou de outro interesse da própria pessoa.

De lugar também, gosta-se de um lugar por uma razão qualquer, às vezes sem razão alguma. Avalia-se a arquitetura, os barzinhos ou os cafés, as pessoas na rua, a polícia, as lojas, os museus, os palácios, a natureza, os passeios e tudo mais. Em geral, sem conhecer de fato o local. Gosta-se de um lugar por uma foto ou por uma ideia, que pode ter vindo pelo cinema, pela revista, pelo jornal, pelo site, pelo Google, pelo rádio, pela boca a boca, pela rede social ou por outro meio de comunicação, inclusive, em razão da amizade com alguém. As pessoas simpatizam com um local e procuram construir sua vida de forma que uma viagem ou uma mudança possa acontecer e a pessoa esteja lá, presenciando tudo, igualzinho à foto ou à imagem que criou no subconsciente.

Foi assim que aconteceu com Carlos e sua paixão por Ljubjana, que vem a ser a capital da Eslovênia, país para o qual não se exige o visto de brasileiro. Ela faz parte da União Europeia e substituiu sua antiga moeda, o tolar, que era dividido em cem stotin, pelo euro (E). A cidade tem cerca de trezentos mil habitantes, sendo sede de indústria pesada, assim como em Jerenice, em especial, de siderurgia, já que o país tem várias minas de carvão. Existem, em volta da capital, plantações de batatas e de cereais e pomares de várias árvores frutíferas, que também são cultivados em todo o território.

Os eslovenos, dentro da movimentação geral dos eslavos, de origem indo-europeia, ocuparam a região, até que, em 748 d.C., foram incorporados pelo Império Carolígeno e entraram para a história ocidental. Depois da repartição desse império, sofreram a dominação de vários povos de origem germânica, até que, em 1278, passaram para o Governo Habsburgo, dominação que chegou até 1918. Não obstante, houve muita resistência, sendo célebre a revolta dos eslovenos contra o jugo estrangeiro, em defesa de sua língua e de sua independência. Foi famosa a batalha de Matija Gabec, no século XIII, como símbolo da resistência local.

A Eslovênia atual nasceu com o fim do Império Austríaco, logo depois da I Guerra Mundial, como parte integrante do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que durou até a ocupação nazista. Depois da II Guerra Mundial, resultando da resistência dos partisans de Josep Tito, foi formada a federação de seis nações, que integravam a Iugoslávia. Este era um país de natureza socialista, do qual o território do povo esloveno fazia parte como república autônoma. Quando o líder iugoslavo morreu, em 1980, a união política começou a se dissolver. Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, surgiu o processo de independência das nações que integravam a Iugoslávia. No mesmo ano, foi realizada a primeira eleição pluripartidária na Eslovênia. Em seguida, proclamou-se a independência, mas houve a resistência inicial dos sérvios, que dominavam a federação iugoslava, até que no ano seguinte aceitou-se sua libertação. Em janeiro de 1992, finalmente, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu-a, passando a Eslovênia, então, a fazer parte dela. Mais recente, em 2004, ingressou na União Europeia, junto com outras nove nações na época.

A Eslovênia é um local bem interessante, por conta de sua história, de sua paisagem e da sua cultura. A população de quase dois milhões de habitantes concentra-se no campo e em pequenas cidades. Quase todos falam o esloveno, idioma de origem eslava, próximo do sérvio-croata, sendo escrito em alfabeto romano. Atualmente, os jovens falam bem o inglês ou o alemão. Quase todos são católicos, sendo que por um período foram protestantes, logo depois da Reforma, mas a Igreja de Roma conseguiu resgatar a região para seu seio.

Carlos chegou de Zagreb, onde tinha desembarcado no seu aeroporto e, em seguida, alugou um veículo. Poderia ter descido em Kranj, cidade de porte médio para o local, com quarenta mil habitantes. O aeroporto internacional da Eslovênia fica a quarenta quilômetros de Ljubljana. Preferiu desembarcar na Croácia, pois pretendia voltar a Zagreb, para conhecê-la e depois visitar o mar Adriático. Por outro lado, a capital croata ficava apenas a cerca de cento e cinquenta quilômetros da capital eslovena, através de uma boa autopista.

Logo depois de desembarcar na Croácia, pegou a avenida que levava ao aeroporto, no sentido contrário ao acesso a sua capital, até o entroncamento em que encontrou a rodovia A-2, que estava em excelente estado de conservação com pista dupla. Seguiu por uns trinta quilômetros, até a fronteira, passando de carro pelo duplo posto da fronteira entre os dois países. Sem muito problema, houve apenas um breve exame do passaporte e seu carimbo pelo posto esloveno. Hoje desnecessário, pois a Croácia também ingressou na União Europeia. Depois, pela mesma denominação, A-2, dirigiu- se até Ljubljana, onde Carlos não parou, passando também ao largo de Kranj, até chegar a Bled e sua magia. Nesse trecho, já existem obras de melhoria, com a duplicação total da pista, com o financiamento e as placas europeias.

A Eslovênia tem um território pequeno, por volta de vinte mil quilômetros quadrados, que fica no extremo noroeste da península dos Bálcãs. Trata-se de região montanhosa e coberta por imensas florestas verdes e encantadoras. Entre os montes, ficam os vales férteis e cultivados, cortados por inúmeros rios, em especial, o que atravessa Ljubljana. No limite norte, próximos da Áustria, estão os Alpes Julianos, região de esportes de inverno, com o monte Triglav tendo mais de dois mil e oitocentos metros de altura.

Nos Alpes Julianos, há várias montanhas e lagos, como o Bled e o Bohinj. No primeiro, com colinas que cercam o vale onde fica o lago, sob a vista do majestoso Castelo de Bled, localizado no alto de um penhasco alto e soberbo. A cidade é pequena e de aspecto turístico, com apenas seis mil habitantes em volta do lago, com diâmetro de dois quilômetros, conhecido por suas águas mornas, que o faz ser habitado por patos e por outras aves aquáticas. No meio desse lago, há uma ilha com construções no seu centro. As águas são cercadas por montanhas altas e verdes, que formam um cenário muito bonito.

O Castelo de Bled fica no alto de uma montanha, dominando o vale e o lago do mesmo nome. Foi objeto de sucessivas construções, desde o século X até seu feitio atual, concluído no século XVI. Trata- se de uma massa colossal de muros de pedra, sendo uma boa defesa para qualquer invasão feita com as armas antigas. Nele, a vista do lago é soberba. Em baixo, à esquerda, a cidade, e, à direita, as montanhas verdes em vários tons que cercam as águas escuras. Existe, ainda, um pequeno museu com diversos objetos encontrados na região, além de peças do próprio castelo, assim como maquetes mostrando a evolução da arquitetura do local.

Carlos desceu para o lago, conhecido pelas suas águas tépidas, onde também a paisagem era maravilhosa. Enquanto patos faziam evoluções pela margem do lago, talvez uma dança de acasalamento, ele observava a ilha que ficava no meio dele. Nela, havia uma igreja e uma pequena fortificação, como se fosse um objeto de decoração, podendo ser alcançada por meio de barcos de aluguel. Depois de andar um pouco, chegou a um restaurante com a arquitetura típica, bem simpática, pois já eram três horas da tarde.

Sentou-se Carlos no fundo, com a vista para uma janela e o lago. Logo, a garçonete veio lhe mostrar o cardápio, com pratos da cozinha italiana e eslovena. Acabou optando por esta e pediu um lombo de porco defumado, acompanhado com salada verde para amenizar a consciência, além de uma cerveja clara eslovena de agradável sabor. Ficou olhando a paisagem magnetizado por ela, até que uma pessoa entrou no restaurante, que só tinha de cliente ele e um casal que já estava almoçando quando entrou lá.

No início, viu apenas o vulto, sem que desviasse sua vista do lago e do castelo no penhasco. Era bonito demais e nada mais lhe chamava a atenção, mas chegou o pedido com uma nova cerveja. Estava tenro e gostoso o prato, especialmente o longo bife de porco. Comeu com sofreguidão e logo acabou a comida. Pagou a conta, porque queria chegar antes da noite em Ljubljana.

Quando ia saindo do restaurante, reparou na mulher que apenas tomava um café. Os cabelos negros e longos caídos pelo rosto, como se apenas olhasse a xícara e seu conteúdo. Quase nada dela se podia observar, apenas o nariz bem feito. Ela lhe lembrou Elisa e seu coração disparou. Perguntou-se se seria ela a pessoa que estava ali, mas descartou a possibilidade. Ela era agora Magistrada, em Brasília, não fazia sentido estar na Eslovênia.

Foi para a rua, mas não se afastou do restaurante, até que a mulher saísse do local. Achou-a mais parecida ainda com Elisa, apesar da distância. Acenou, mas ela não olhou para ele. Ficou parado em dúvida, porém decidiu se aproximar. Foi tarde, porém, ela tinha um veículo estacionado próximo e tomou a pista rapidamente. Em um átimo, ele correu e pegou também seu carro também. Pela intuição, foi para Ljubljana pela A-2.

Correu muito, como se fazia nas autopistas na Europa. Lá, em condições normais, trafega-se a cento e quarenta, cento e sessenta quilômetros por hora. Às vezes, a pessoa está com tal velocidade mas, pela pista ao lado, passa um Ferrari a quase duzentos, como um vento. Fez assim mesmo, foi a toda, no limite em que achou que podia. Depois de algum tempo ainda avistou o carro azul dela, mas se ele corria bem, ela ainda mais com seu Audi. Depois de algum tempo, não pôde mais observar o veículo da mulher, todavia ele continuou em direção à capital eslovena.

A entrada na cidade foi tranquila por ser bem sinalizada, até as proximidades do centro antigo e agora bairro turístico e comercial. Ele se envolveu em um engarrafamento imenso, porém, ainda mais surpreendente por seus meros trezentos mil habitantes. Carlos teve tempo para ver a placa no edifício onde ficava o Hotel Lev, um bom cinco estrelas, com tempo para manobrar e dar a volta no local certo e entrar por trás do quarteirão onde o edifício ficava. Inclusive, o hotel tem um cassino em suas entranhas, sendo um local indicado para quem gosta de black-jack, de roleta ou de máquinas caça-níquel.

Após tomar uma ducha e ver um pouco da televisão eslovena, resolveu sair para o centro histórico antes que escurecesse totalmente, por volta das sete horas da noite. Ficavam próximas do hotel várias ruas de pedestres que confluíam para o centro da cidade – Zentrum. Foi em sua direção, vendo as vitrines sofisticadas, mas ainda um tanto tímidas no tamanho. Enfim, quase tudo era pequeno e elegante.

Ljubjana é encantadora, como se fosse uma antiga joia do Império Austríaco. A cidade, a partir do século XVII, começou a receber investimentos em obras e em palácios barrocos, como a Catedral, que fora planejada pelo arquiteto italiano A. Pozzo, que também projetou vários palácios no país. Na época, começou a formação cultural romântica, com a poesia de Valentin Vodnik e a pintura de Franc Jelovsec, nos séculos XVIII e XIX. Ela é uma cidade elegante e clara, daí a chamarem de Branca – Ljubjana.

Carlos desceu pela Slovenska Cesta na direção da Copova e da praça Presernov Trg, quase em frente às Três Pontes, local famoso da cidade pelo encontro de jovens e pela oportunidade que os turistas têm de caminhar em meio a vários cafés e restaurantes. No entanto, de repente, a chuva começou a cair e a espantar as pessoas da rua. Alguns, com guarda-chuvas ainda enfrentavam a água insistente e fria, mas a maioria desapareceu. Carlos tinha um bom casaco que lhe aquecia e o protegia da chuva, inclusive, com capote.

Quando aumentou a água, ele abrigou-se sob o toldo de um café. Estava vazio, mas logo um garçom veio lhe atender. Pediu um conhaque e lhe serviram um Napoléon. A temperatura estava menos do que dez graus centígrados e a umidade ainda aumentava a sensação de frio. A bebida esquentou-lhe as entranhas e ele pôde sorrir desde que saíra de Bled. De onde estava, avistava as três pontes, ao lado do rio, com as costas para o Castelo de Ljubljana, com sua imponente presença na cidade, no alto de um monte muito elevado, no coração da cidade. A fortaleza pode ser visitada através de um funicular, na proximidade da Vodnikov Trg, onde também tem uma feira famosa, mas somente pela manhã ou cedo da tarde. A Catedral fica também ali, na praça mencionada, um tanto sem graça.

Carlos estava absorto com a bebida, quando viu uma mulher elegante, passando pela chuva. Estava resoluta, com seu guarda- chuva vermelho intenso. Os cabelos iam meio escondidos pelo casaco, deixando o rosto exposto. O mesmo nariz e, aparentemente, os mesmos olhos escuros e intensos. Um frio passou pela coluna dele – seria ela? O que estaria fazendo em Ljubljana? Fazia turismo ou algum seminário? Procurava por ele? Teria sabido de sua viagem e resolvera fazer-lhe uma surpresa? Não, nada daquilo fazia sentido… Ela desceu a Stritarjeva e saiu em direção a CirilMetodov Trg, com Carlos em seu encalço, depois dele apressadamente deixar vinte euros na mesa do café. Logo ele a viu entrando no restaurante mais tradicional da cidade, Sokol, patrimônio gastronômico de Ljubljana. Procurou-a no primeiro andar, que estava cheio, mas não a encontrou. Subiu ao segundo piso, amplo e vazio, e percebeu-a sentada em uma mesa com vista para a janela da rua, de modo que ela estava de costas para ele. Ficou ainda em dúvidas e sentou na cadeira de uma mesa próxima à escada, de modo a controlar a mulher.

O restaurante servia a comida que resultara da influência eslava e húngara, com carnes fortes, para proteger do frio, e peixes leves, para manter a esbelteza do povo claro e alto. Carlos, mesmo sem fome, pediu de entrada cogumelos fritos e, de prato principal, truta em envelope de papel alumínio. Estava tudo delicioso e o vinho branco esloveno caíu bem com a comida. Ela continuava olhando a janela, apenas tomando cerveja em um copo longo, de meio litro, como se usava muito na região.

Pagou sua conta e se aproximou da mulher e do seu cabelo escuro, longo e liso, ainda úmido, mas que se espalhava por suas costas de moda muito charmoso.

Elisa? – perguntou de forma tímida. A mulher não se virou.

  • Elisa! – chamou mais

A mulher continuou sem se mover.

  • Elisa – disse tocando-lhe o

Ela se virou e disse em esloveno: – Kako?

Era Elisa: os mesmos olhos, o mesmo nariz, a mesma boca e os mesmos cabelos emoldurando o rosto claro e harmonioso. Era Elisa, tinha o seu rosto e seus gestos. No entanto, a mulher olhava-o como se o interrogasse sobre o que queria: – Kako?

  • Sou eu Elisa, o Carlos – mas ela se manteve em interrogação.

Ele sentiu as pernas amolecerem e, antes de cair, conseguiu sentar em uma cadeira próxima à mulher. Vendo-a mais próxima, teve certeza de que era ela. O coração batia apressado e tudo dizia que a mulher da sua vida estava ali, em Ljubljana, ao seu lado. Quis tocar-lhe o rosto, mas ela o afastou delicadamente com a mão. Continuou a olhar para ela que, sem desviar os olhos, parecia não saber de quem se tratava.

Carlos se lembrou de tudo, de como ela, depois de passar em concurso para Juíza do Distrito Federal, mudara-se do Rio de Janeiro para Brasília e nunca mais falara com ele. Conseguiu o número do telefone do seu apartamento, mas ela, depois de atender, baixou o fone de imediato. Esteve procurando seu gabinete, no Fórum do Gama, cidade satélite, mas ela não o recebeu. Esperou a tarde inteira e boa parte da noite, mas Elisa não saiu da sala, até que ele desistisse. Foi ao apartamento dela mais tarde, mas o porteiro não o deixou subir e ainda ameaçou chamar a polícia. Enviou-lhe ainda três cartas, mas todas foram devolvidas pelos correios. Tentou o Facebook e o Wat-zap, mas nada conseguiu, nenhuma resposta. Ela simplesmente se foi e não teve mais contanto nenhum com ele. Cortou todas as relações.

Carlos sabia que a culpa era sua, pois a relação entre eles tinha muitos anos e ele não decidia o que queria – se largava sua mulher e o filho por Elisa ou ficava onde estava. Ele a amava com um fervor desconhecido, considerava-a um brilhante azul de muitos quilates, mas não saía de casa porque tinha outro drama, também amava a esposa. Ouvia sempre que era impossível amar duas mulheres, mas ele amava assim, sem explicação. Queria as duas e se incomodava em enganar as duas, mas continuava a tentar conciliar o inconciliável. Ele tinha que fazer uma opção, mas não conseguia, pois julgava amar ambas as mulheres. Não era um amor igual, mas completamente diferente, apenas com a mesma intensidade. Ele queria ficar com as duas, pois pensava necessitar delas para ser feliz. Como Carlos não optara, Elisa resolvera e fora embora sem nunca mais falar com ele.

– Elisa, por favor, fale comigo – disse em português. Como ela continuava calada, repetiu a frase em inglês.

De repente a mulher levantou-se e correu para a escada. Perplexo, Carlos demorou a se erguer. Quando foi atrás dela, descendo também a escada em disparada, não a encontrou no andar de baixo e saiu para a rua. Ainda viu sua capa bege e o guarda-chuva correndo pela rua, na direção da Mestni Trg, em meio à chuva que estava mais forte. Saiu também na mesma direção, feito um louco, sem ter sequer colocado o casado. Em meio aos pingos gelados que caíam em seu corpo, como se fossem pequenas agulhas em sua pele, continuou a corrida em busca da mulher. Seguiu-a até a Stari Trg, quando ela entrou em uma viela e desapareceu. Ele esmiuçou o local, mas não encontrou nenhuma pista. Estava molhado e trêmulo, como um bêbado, ou melhor, como um náufrago.

Voltou gelado para o hotel, andando pela chuva, sem ter sequer recuperado seu casaco no Sokol. Quando chegou a seu quarto no hotel, tomou uma ducha quente, até que os dedos da mão enrugassem. Saiu do banho, ligou a televisão na MTV e ficou vendo um pop qualquer. Pegou ainda uma garrafinha de conhaque no minibar e ela ajudou a aquecê-lo mais. Uma lágrima caiu pelo seu rosto, mas uma vez perdeu a mulher que amava e ele só percebeu tarde demais. O casamento de Carlos estava acabado e só fora mantido talvez por culpa. Como ele não decidiu, Elisa teve a coragem de tomar uma posição e de abandoná-lo para sempre.

Carlos foi até a janela do quarto e ficou olhando o movimento intenso da Gosposvetska, ao lado do hotel, que continua a Celovoska Cesta, que ligava a rodovia A-2 ao centro da cidade. A chuva parecia mais intensa e outra lágrima correu pelo seu rosto pálido. Seria mesmo Elisa? A mulher não parecia de modo algum com uma eslovena, na maioria loura e em geral com as feições eslavas, de maçãs do rosto proeminentes e olhos puxados. Ela parecia mais uma latina, uma brasileira, no máximo uma italiana. Era Elisa ou não era? Ele ficou pensando na mulher que tanto amara e que fugira para sempre. Perdeu a mulher mais uma vez, antes que pudesse falar do seu imenso amor. Perdeu-a para sempre, na noite de Ljubljana, de modo que nunca mais ia poder esquecer sua fuga. Nas ruas barrocas da cidade, nas vielas escuras, alguém como um fantasma se esvaneceu, ficando em sua memória apenas, na noite em que muito de si morreu também.

 

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